sábado, 28 de março de 2009

Oscar Romero-Mártir da América

“Tomara que ninguém silencie as vozes do povo latino-americano que exige transformações na atual conjuntura de fraude financeira mundial e de renovado clamor por ‘Outro Mundo Possível’.” A frase esperançosa e otimista é do Padre Diego Irarrazaval. Na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line, ele relembra quem foi e o que representa Monsenhor Romero, Arcebispo de San Salvador, que denunciava, em suas homilias dominicais, as numerosas violações de direitos humanos em El Salvador e manifestou publicamente sua solidaridade com as vítimas da violência política, no contexto da Guerra Civil no país. Em 24 de março de 1980, foi assassinado por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado nas Escola das Américas, enquanto celebrava a missa. Sua morte provocou uma onda protestos em todo o mundo e pressões internacionais por reformas, em El Salvador.
Padre Diego Irarrazaval é professor na Universidad Católica Silva Henriquez, em Santiago do Chile. É, também, membro de Associação Ecumênica de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo.
Confira a entrevista.

IHU On-Line – O contexto em que viveu Oscar Romero é diferente do atual? Que diretrizes ele nos deixa para hoje?

Diego Irarrazaval – Na recente eleição presidencial em El Salvador (15/03/2009), triunfou a esperança de justiça e paz, depois de décadas de violência com seus 75 mil mortos. O contexto em que viveu o Bispo Romero, os jesuítas mártires e as mulheres que os acompanhavam, assim como todo o povo crucificado e ressuscitado, está mudando. Ao mudar o contexto, segue vigente o legado de Romero: ser testemunha do Evangelho no meio da população violentada e solidária. Neste 24 de março, em todo o continente, esta convicção se refletirá: “São Romero da América, pastor e mártir nosso, ninguém fará calar tua última homília... tu oferecias o Pão, o Corpo Vivo, o triturado corpo de teu Povo, seu sangue derramado vitorioso”. Tomara que ninguém silencie as vozes do povo latino-americano que exige transformações na atual conjuntura de fraude financeira mundial e de renovado clamor por “Outro Mundo Possível”

IHU On-Line – Por que Romero foi um profeta no processo social de seu país?

Diego Irarrazaval – Para Romero, ordenado sacerdote em Roma (1942) e Bispo em São Salvador (1970), “os pobres lhe ensinaram a ler o Evangelho” (como disse Pedro Casaldáliga [1]). De clérigo temeroso e conservador, passou a ser um profeta solidário com seu povo. Dizia ele: “a denúncia da idolatria te sido sempre a missão dos profetas e da Igreja. Já não é o deus Baal [2], mas há outros grandes ídolos o nosso tempo: o deus dinheiro, o deus poder, o deus luxo, o deus luxuria. Quantos deuses introduzidos em nosso ambiente! A voz de Oseas tem atualidade também agora para dizer aos cristãos: não misturem essas idolatrias com a adoração ao verdadeiro Deus. Não se pode servir a dois senhores: ao Deus verdadeiro e ao dinheiro” (11/06/1978).

IHU On-Line – Por que Romero é tão controvertido na Igreja? Como anda o processo de sua canonização?

Diego Irarrazaval – A vida e as palavras de Romero estão cheias de frases como estas: “Um Evangelho que não leva em conta os direitos de homens e mulheres, um cristianismo que não constrói a história da terra, não é a verdadeira doutrina de Cristo, é simplesmente instrumento do poder. Lamentamos que em algum momento nossa Igreja também tenha caído nesse pecado; mas queremos revisar esta atitude e, de acordo com essa espiritualidade autenticamente evangélica, não queremos ser brinquedo dos poderes da terra, mas queremos ser a Igreja que leva o Evangelho autêntico, valente do nosso senhor Jesus Cristo, ainda que seja necessário morrer como Ele, em uma cruz” (27/11/1977). Obviamente isto desperta polemica no interior de grupos cristãos. No entanto, iniciou-se já o processo de canonização. Acredito que o importante não é somente isso, mas também que sejam reconhecidos tantos mártires anônimos em nosso continente.

IHU On-Line – Qual é a contribuição de Ignacio Ellacuría e de Romero na chamada “filosofia da libertação?

Diego Irarrazaval – Certamente Ellacuría (e tantos outros) nos oferecem luzes (e toda uma epistemologia) para pensar nossa realidade e para cuidarmos da dor e do caminhar de nossos povos. Se sabe que tanto Ellacuría como Sobrino estiveram associados à obra e ao pensamento de Romero. Hoje ao ressurgir a eco-teologia é bom escutar Romaro: “A libertação que a Igreja espera é uma libertação cósmica. A Igreja sente que é toda a natureza que está gemendo abaixo do peso do pecado. Que lindos cafezais, que belos canais, que lindos algodoeiros, que propriedades, que terras as que Deus nos tem dado. Que natureza mais bela! Mas quando a vemos gemer sob a opressão, sob a iniqüidade, sob a injustiça, sob o atropelo, isso dois à Igreja que espera que a libertação não seja somente o bem estar material, mas que seja também o poder de um Deus que livrará das mãos pecadoras da humanidade uma natureza que, junto com homens e mulheres redimidos, vai cantar a felicidade em um Deus libertador” (11/12/1977).
Romero não foi um filósofo nem um teólogo acadêmico, mas claramente difundiu a sabedoria de seu povo, assim como também foi alimentado pelo pensamento de Ellacuría, de Sobrino e muitos outros.

IHU On-Line – Como é a tensão entre a Igreja dos pobres e outros setores da Igreja?

Diego Irarrazaval – Em uma de suas comovedoras cartas a Ellacuría, Jon Sobrino dizia: “Posso estar cego de amor, mas acredito que aquela Igreja, a de Romero, era uma Igreja salvadorenha, popular, de pobres e mártires. Era uma Igreja cristã, povo de Deus, memória viva de Jesus e portador de seu Espírito. História e trascendencia caminhavam de mãos dados”. Parece-me que a tensão se desenvolveu entre o ser eclesial fiel ao pobre e a Deus (por um lado) e as formas cristãs funcionais à dominação (por outro lado). É uma tensão que marca toda a história do cristianismo e que hoje causa muitas feridas e interrogações. Confio que em cada crente há uma lucidez e coragem para não tapar a luz do sol com um dedo...

IHU On-Line – Como podemos celebrar, em nossos espaços acadêmicos, a comemoração do martírio de Romero, neste 24 de março?

Diego Irarrazaval – Podemos recuperar a coragem de uma pessoa frágil (como foi Romero) e continuar a cuidar da nossa realidade latino-americana, com suas dores, e as flores da esperança. Isto implica um trabalho sistemático, no ensino e na pesquisa acadêmica, e na vida quotidiana coerentes com os princípios do Evangelho.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Nós enquanto igreja conseguiremos promover uma reflexão sobre o problema da violência e corrupção no Brasil?

Segundo o secretário-executivo da campanha, padre Alberto Vanzella, a população costuma se sensibilizar mais com crimes do que com o assalto aos cofres públicos praticado por representantes públicos. "A corrupção também é um crime violento, mas as pessoas não se sensibilizam tanto”. Se você tem um crime de chacina, as pessoas se sensibilizam mais. Elas não pensam que a corrupção esgota a capacidade de investimento do estado em políticas públicas que combatam a violência", disse.

Com o lema "A paz é fruto da justiça", a igreja católica vai propor discussões sobre a violência que está mais próxima dos fiéis, nos bairros ou até dentro de casa. "Vamos falar sobre a violência que acontece até dentro de casa, a violência doméstica por exemplo. As pessoas se comovem com a violência das grandes metrópoles e se esquecem dos fatos que acontecem na comunidade ou bairro onde moram", lembrou o padre.

O texto-base da campanha fala do objetivo de "denunciar a gravidade dos crimes contra a ética, a economia e as gestões públicas, assim como a injustiça presente nos institutos da prisão especial, do foro privilegiado e da imunidade parlamentar para os crimes comuns”. Os crimes de corrupção e do 'colarinho branco' não são violentos em si, mas geram outras formas de violência', conforme aponta o texto-base.

As equipes que vão levar a mensagem da campanha da fraternidade 2009 para as paróquias já foram treinadas nas 17 regionais da CNBB do país. A igreja pretende convocar a população para participar do combate às práticas de violência e corrupção."Queremos mostrar que políticas públicas não são feitas só pelo Estado. Se faz com participação social e exercício da cidadania. Precisamos resgatar o respeito pela dignidade humana ainda mais agora que está em estudo a implantação do Pronasci, o programa nacional de segurança integrada", falou.

A CNBB também coordena um grupo de entidades que busca obter 1,5 milhão de assinaturas com o objetivo de apresentar um projeto de lei ao Congresso contra a participação dos "ficha-suja" nas eleições. Cerca de 700 mil pessoas já assinaram a proposta de lei, segundo o padre.

Temos um convite para começar a “ver” o que está acontecendo e descobrir como Deus “julga” essa realidade, para “agir” em torno de caminhos solidários e comunitários afim de melhorar a Segurança. Juntos precisamos refletir. Como andam nossas comunidades? Quais violências sofremos? Quem alimenta a violência? Enxergar além do que vemos, entender as causas de tanto sofrimento, porém, a maior de todas as violência é o MEDO.

Talvez não tenha percebido, mas, somos cotidianamente violentados e violentadas pelo medo.
A omissão frente aos problemas já e um tipo de violência. Sentimos por todos os lados os “Ecos do Medo”. O que fazer? Estas e infinitas perguntas farão parte da dinâmica de formação dos encontros do Movimento de Fé e Política.
Participe. Mobilize sua paróquia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Carta Serramar de Fé e Política

“Vigiem e fiquem alertas, pois vocês não sabem quando chegará a hora”
(Mc 13, 33-37)

Com os corações abertos para partilharmos nossas experiências de fé e política das cidades de Macaé, Rio das Ostras e Nova Friburgo, participamos do I Seminário de Fé e Politica do Grupo Serramar, realizado em Nova Friburgo no Instituto de Formação de Agentes de Pastoral-IFAP e tendo a assessoria do Instituto de Estudos da Religião-Iser.
Enquanto nos reuníamos entorno do tema: Um olhar amplo e atento sobre a conjuntura
política e eclesial da América Latina e o que fazer em 2009 ?, a igreja de todo o mundo celebrava a Santa Missa do 1º Domingo do Advento, revelando no Santo Evangelho o alerta de Jesus Cristo: “Vigiem e fiquem alertas, pois vocês não sabem quando chegará a hora”. Nesse espírito se deu a abertura do encontro.
De Rio das Ostras trouxemos a mística que revelaria a tônica desse dia. Nosso advento foi inciado pelo ato de recordarmos a memória de 125 mártires de caminhada. Homens e mulheres que deram a vida em defesa da justiça e da solidariedade. Foram assassinados por defenderam os direitos garantidos pela Constituição Federal.
Na grande imprensa, as injustiças são transformadas em produtos comercializáveis nesta gincana da barbárie humana. A violência toma conta da juventude. Os falsos valores que alimentam o individualismo são transmitidos em tempo real. Nós não somos e não seremos notícias porque não comungamos do individualismo, do desprezo aos que sofrem, do desrespeito à dignidade humana.
Durante trinta anos os donos da economia mundial repetiram que a globalização era sinônimo de felicidade, um paraíso para todos - equivocaram-se. Tanta miséria e exploração humana pelo lucro insaciável e assassino. A Globalização conduziu a economia mundial a tomar forma de uma economia de papel, virtual, imaterial. Será dentro dos nossos lares que sentiremos o efeito da crise mundial.
Abres-se, por tanto, a possibilidade de discussão, por parte dos movimentos sociais, de um novo projeto de sociedade assentado em bases que tenham a classe trabalhadora como protagonista na organização da produção dos bens necessários á vida.
Nesta crise financeira e moral, o que faria Cristo em nosso lugar? O Cristo ressuscitado se fez presente em cada mártire recordado; o Cristo Ressuscitado se fez presente nas ações dos grupos de fé e politica ao longo de 2008; o Cristo Ressuscitado nos faz sonhar com homens e mulheres levando adiante os projetos do Grupo Serramar de Fé e Política. Construiremos uma nova identidade do EU e do NÓS enquanto atores participativos da vida pública das nossas cidades. Para fazer acontecer, queremos para fevereiro, o seminário para discutir a importância da escola diocesana de Fé e Política em Nova Friburgo; carregaremos as cruzes das assembléias populares; seremos uma voz a mais nos movimentos sociais do país.
A ocasião do Advento é propícia para afirmarmos dentro de nós que um novo mundo nas relações humanas é possível, Deus é fiel e nos chama para realizarmos este sonho (2ª Leitura: 1 Corintios 1, 3-9). Precismos ressuscitar o espírito participativo daqueles e daquelas que não mais anseiam por um mundo novo, devemos ter a coragem de com Cristo, por meio da oração, ação e reflexão construirmos a relação de justiça e de paz anunciada por Jesus.
A roupagem do homem velho e individualista terá de cair para que em seu lugar venha nascer um novo homem repleto de compaixão e e de solidariedade uns com os outros. O Cristo Ressuscitado alimentará nossas esperanças na prática da justiça conforme os caminhos de Deus (1ª Leitura: Isaías 63, 16-17; 64, 2-7).
Eis a nossa missão.
Grupo Serra Mar de Fé e Política
30 de novembro de 2008

segunda-feira, 17 de novembro de 2008













SEMINÁRIO

UM OLHAR AMPLO E ATENTO SOBRE A CONJUNTURA
POLÍTICA E ECLESIAL DA AMÉRICA LATINA: O QUE FAZER EM 2009 ?

Realização: Grupo SerraMar de Fé e Política
Assessoria: Instituto de Estudos da Religião-Iser

PROGRAMAÇÃO:

08:00 – Chegada – acolhida – café – animação
09:00 – Momento de Mística e Espiritualidade
09:30 – Tema:
"UM OLHAR AMPLO E ATENTO SOBRE A CONJUNTURA
POLÍTICA E ECLESIAL DA AMÉRICA LATINA"

10:30 – Grupos de Partilha
11:15 – café - água
11:30 – Partilha dos grupos
12:00 – Almoço
13:00 – Informes dos Grupos e Movimentos Sociais
Apresentação do projeto de escola diocesana de Fé e Política
14:00 – Grupos de partilha: o que fazer em 2009 ?
15:00 – Partilha dos Grupos
16:00 – Oração final

30 DE NOVEMBRO (DOMINGO)
HORÁRIO: 08:00 ÀS 16:00H
LOCAL: IFAP – INSTITUTO DE FORMAÇÃO DE AGENTES DE PASTORAL
Ao lado da Igreja São Pedro e São Paulo em Duas Pedras –
Nova Friburgo-RJ

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

HISTÓRIA DO GRUPO SERRA MAR

Além da praia e do mar - a esperança e utopia unem Nova Friburgo-RJ e Região dos Lagos. Com este pensamento, no dia 22 de junho de 2007, homens e mulheres da Serra e do Mar de diferentes grupos de “Fé e Política” da Diocese de Nova Friburgo-RJ, se uniram com o objetivo de partilharem experiências, realizações e propor ações "proféticas" que animem uma caminhada conjunta das ações que alimentam nossas esperanças.

Neste encontro os grupos trouxeram seus informes das ações de Fé e Política nas cidades. O Movimento de Fé e Política friburguense disse prestar apoio e solidariedade ao Movimento Moradia e Participação organizado pelas vítimas das últimas enchentes da cidade e que até hoje, não foram atendidos pela prefeitura com a construção de casas populares para os desabrigados. Também foi comunicado o desejo de se trabalhar junto na construção de um projeto para a criação de uma escola de formação de fé e política na diocese, a idéia foi fortalecida no Seminário Nacional das Escolas de Fé e Política realizado nos dias 25 a 27 de abril de 2008 em Brasília, tendo o Wilkie como representante do vicariato sede.

No Vicariato Litoral, os informes trouxeram exemplos de importantes mobilizações: Mobilizaram a igreja e a sociedade para impedirem o projeto de Lei Municipal que incentivava o controle de natalidade por métodos contrários a defesa da vida na cidade de Macaé. Relataram ainda, as manifestações no dia do Grito dos Excluídos em Rio das Ostras que obteve o apoio dos sindicatos, movimentos estudantis e outros, sobre a temática da corrupção eleitoral, nesse sentido foi citado a Lei 9840 de iniciativa popular que permite a cassação de registros e diplomas eleitorais em virtude da prática da compra de votos ou do uso eleitoral da máquina administrativa, o movimento de conscientização contou com camisas e slogan mobilizando os moradores da cidade para apoiarem através de um abaixo assinado o Movimento de Combate à Corrupção que luta por um novo projeto de lei que necessita de mais de um milhão de assinaturas (http://www.lei9840.org.br/).

Após acolhermos as "angustias e esperanças" nos recolhemos num momento de "Mística e Espiritualidade" tendo como centro da oração-reflexão o evangelho de Mt 10,26-33, que propunha: "Não tenham Medo", "o que vos digo na escuridão dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados".

Pudemos perceber que a perseguição estava na lógica do Anúncio Evangélico dos primeiros Cristãos: Aconteceu com Jesus, acontecerá com os que lhe forem Fiéis. Nos perguntamos: "Será autêntica a Igreja que não sofre nenhum tipo de rejeição e perseguição, sobretudo num País tão Desigual como o Nosso??" Concluímos que existem duas Igrejas a saber: A "Igreja da Catacumba" e a "Igreja Romanizada"; que muitos, ainda, buscam formas "alternativas" de testemunho contornando os conflitos e perseguições dando a religião um caráter "intimista" ao invés de desmascarar o Sistema Capitalista que promove a morte e que a luta por "Justiça do Reino", ainda, esbarra na Resistência dos que não querem mudanças sociais.

Em seguida fizemos um debate sobre a Conjuntura Política, tendo como proposta uma parte do texto (p. 1-3) de "Analise de Conjuntura – Junho 2008" que foi apresentado na 66ª Reunião Ordinária do Conselho Permanente da CNBB em 11 a 13 de Junho.

Desde o primeiro momento ficou claro que a criação do Grupo Serra Mar de Fé e Política seria um importante caminho para ampliarmos nossos laços de amizades e por causa da nossa fé, fortalecermos nossos encontros de reflexões e de espiritualidade, um grupo em profunda comunhão.